quinta-feira, 3 de abril de 2008

Uso dos tempos verbais - Indicativo e Subjuntivo

Vou tomar emprestado alguns elementos de um certo texto em língua estrangeira para vos falar de tempos verbais. Boa leitura!
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Por mais óbvio que pareça, algumas pessoas às vezes se esquecem de que um bom domínio do uso dos tempos verbais na Língua Portuguesa pode ser a chave para a construção de um bom texto.
Estamos habituados a vários pretéritos e futuros, o que indica que ao falar e escrever não nos contentamos com expressar a diferença simples entre o presente, o passado e o futuro, mas também distinguimos peculiaridades que fazem com que os vários pretéritos e futuros não se empreguem indistintamente, nem possam substituir-se entre si.
Vamos ver, primeiramente, o modo indicativo.

Presente.Com o presente, expressamos as ações que coincidem com o ato da palavra. Se digo "Eu leio" (neste momento), minhas palavras coincidem com o ato de ler. Este é o chamado "presente atual".

Quando se trata de atos repetidos ou habituais, que não se produzem neste momento em que falamos, mas se produziram antes e produzir-se-ão depois, dizemos que o presente é "habitual". Por exemplo: "Levanto-me às sete e depois estudo Geografia" (mas não neste momento). O presente habitual expressa ações frequentes, usuais.

Às vezes usamos o presente para narrar fatos passados. Este é o "presente histórico". Exemplo: "Colombo descobre a América no ano de 1492" em vez de "Colombo descobriu a América no ano de 1942". Também podemos empregar o presente referindo-nos a fatos futuros, por exemplo: "Maria casa-se em breve" ou "Domingo vou para Aracaju", ambas as sentenças respectivamente em lugar de "Maria casar-se-á em breve" ou "Domingo irei para Aracaju".

Para expressar ordem, apesar de seu uso restringir-se ao português europeu, e ainda assim com pouca frequência na linguagem coloquial, é possível, sobretudo em 2ª pessoa, servimo-nos do presente do indicativo em vez do imperativo: "Sobes ao meu quarto, pegas o dinheiro que está sobre a mesa e compras-me os jornais" no lugar dos imperativos "sobe", "toma" e "compra".

Pretérito perfeito.Na Língua Portuguesa contemporânea, o pretérito perfeito só existe em sua forma simples, o que torna impossível nos dias atuais, sob qualquer hipótese, construções que façam uso de um arcaico pretérito perfeito composto. Este pretérito expressa a ação passada independentemente do momento em que se fala. É um passado já consumado, que por si mesmo não indica conexão alguma com o presente: "morreu", "saltaram", "conheceste", "comemos".

Contudo, o pretérito perfeito simples também terá que denotar uma ação passada cujo resultado guarda certa importância para o que fala com a ajuda principal de locuções adverbiais de tempo, uma vez que, como já foi supracitado, não há mais o uso de um pretérito perfeito composto que cumprisse essas funções. Por isso, havendo ou não a necessidade de criar uma relação mais ou menos próxima com o presente, a única alternativa é este pretérito perfeito simples. Cabe ao orador, portanto, saber usar os diversos recursos que oferece a Língua Portuguesa para driblar as ambiguidades. O uso de algumas locuções verbais, por exemplo, encaixa-se convenientemente no papel de "pretérito perfeito composto moderno": "A indústria tem prosperado muito".

Pretérito imperfeito.A ação passada que expressamos no pretérito imperfeito interessa-nos só em sua duração e não em seu término. Se digo "Chovia sem parar", não me importa que haja deixado ou não de chover; detenho-me à duração do fato e não ao seu final. Ao contrário, "choveu" é um fato acabado.

Por esta razão, o pretérito imperfeito dá à ação verbal um aspecto de maior duração que os demais pretéritos. Compare-se a diferença entre "Amava-o muito" e "Amei-o muito". Quando se trata de uma ação momentânea ou de pouca duração, o fato de enunciá-la no pretérito imperfeito significa que é repetida, reiterada, habitual; por exemplo: "Saltava os obstáculos com facilidade", "Escrevia pela manhã", "Contestava sem refletir". Se neste exemplos susbtituíssemos o imperfeito pelo indefinido (perfeito), entender-se-ia que a ação produziu-se uma só vez.

A maior duração do pretérito imperfeito explica seu emprego como presente do passado, isto é, para expressar um passado coincidente com outro passado; por exemplo: "Quando você entrou, chovia" (a ação de chover era presente quando você entrou).

Pretéritos anterior e mais-que-perfeito.Ambos expressam uma ação passada, anterior a outra também passada. Não obstante, o pretérito anterior desapareceu completamente da Língua Portuguesa e de suas gramáticas normativas, limitando-se às gramáticas históricas. Aliás, são poucos os lusófonos no mundo que sabem conjugar um verbo no pretérito anterior. Em tempos remotos do português, o pretérito anterior denotava a anterioridade imediata, ou seja, as duas ações no discurso produziam-se sem interrupção: "Logo que houvera saído o sol, partiram". Este tipo de construção, atualmente, infringe as normas vigentes, quer do português brasileiro quer do português europeu. Assim, a construção moderna seria "Logo que saiu o sol, partiram".

O pretérito mais-que-perfeito, simples e composto, é um passado do passado: "Viram o homem que chegara àquela cidade" ou "Viram o homem que havia chegado àquela cidade" (a ação de ver o homem é anterior ao momento que o viram). A anterioridade expressa pelo mais-que-perfeito não é imediata, já que pode haver transcorrido muito tempo entre as duas orações: "Desobedeceu àquele que tanto havia-lhe ajudado".

Futuro.Indica simplesmente um ato que acontecerá: "A roseira florescerá" e "Voltaremos outro dia".

Às vezes fazemos uso do futuro para indicar probabilidade ou suposição. Por exemplo: "Maria estará em casa a estas horas" (suponho que está) e "Terá uns vinte anos" (é provável que os tenha).

Condicional.Indica uma ação que acontecerá, considerada desde o passado: "Disse que voltaria", "Asseguravam que cantariam". As formas "voltaria" e "cantariam" eram futuras quando "disse" e "asseguravam". É, portanto, um futuro do passado.

Subjuntivo.O modo subjuntivo emprega-se para expressar ações verbais consideradas duvidosas, possíveis, necessárias ou desejadas. Pelo seu caráter de inexatidão, os fatos expressos nos tempos presente, passado ou futuro do subjuntivo não oferecem as relações de tempo tão claras como quando se trata do indicativo.

Assim, acontece que o presente do subjuntivo serve não só para ações presentes, mas também para futuras. Por exemplo: para "Creio que está aqui" (está = presente do indicativo) temos "Duvido que esteja aqui" (esteja = presente do subjuntivo)e para "Creio que virá" (virá = futuro do indicativo) temos "Não creio que venha" (venha = presente do subjuntivo). Ou seja, o presente do subjuntivo pode funcionar para expressar fatos atuais ou que estão por vir.

O pretérito imperfeito do subjuntivo reúne os valores temporais que correspondem no indicativo ao pretérito perfeito simples, ao pretérito imperfeito e ao futuro do passado. Por exemplo, "Não creio que chegasse".

O pretérito perfeito corresponde no subjuntivo ao pretérito perfeito simples e ao futuro perfeito do indicativo. Por exemplo, "Não creio que haja chegado".

O pretérito mais-que-perfeito do subjuntivo expressa os mesmos valores temporais que correspondem ao mais-que-perfeito do indicativo e ao futuro do passado. Por exemplo, "Não acreditava que houvesse chegado".

Os futuros do subjuntivo muitas vezes se confudem com o infinitivo pessoal dos verbos, e por isso é fundamental termos cuidado com a construção de frases equivocadas como "Se eu ver você"(o correto aqui é "Se eu vir você", porque estamos conjugando o futuro do subjuntivo e não o infinitivo pessoal, e no caso do verbo ver, essas formas não são iguais).

5 comentários:

Pedro Melcop disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cavaleiro de Virgem disse...

Olá, Pedro.

Na verdade, cometi um erro ao não ser muito claro na minha explanação sobre o pretérito perfeito composto. Nas gramáticas históricas da Língua Portuguesa, é possível notar como construções do tipo "eu hei dito" ou "ela há cantado" - originalmente conhecidas por pretérito perfeito composto - desapareceram gradativamente, alcançando a extinção em meados do século XIX. Dessa forma, as locuções verbais com o auxiliar "ter" + particípio regular (nos casos em que um verbo tem dois particípios), por razões que podem ser devidamente pesquisadas nessas mesmas gramáticas, assumiram a função "moderna" de "pretérito perfeito composto". Note, no entanto, que se perdeu muita da "abrangência" original do uso desse tempo; não posso, portanto, no português contemporâneo, usar o pretérito perfeito composto para referir-me a uma ação que acabei de fazer. Imagine que entrei neste momento na minha casa e disse "tenho entrado em casa"; não faz, obviamente, o menor sentido (num português medieval, diria "hei entrado em casa" em vez de "entrei em casa", pois aquele passado é "mais recente" que este. O nosso atual pretérito perfeito composto serve apenas para expressar uma ação que aconteceu no passado e prolonga-se pelo presente. De qualquer forma, é evidente que os lusófonos criaram - e criam - maneiras de "delimitar" a "longevidade" do pretérito; construções do tipo "Acabei de chegar" substituem, perfeitamente, a tal atribuição original do pretérito perfeito composto.

Em relação ao pretérito anterior, creio que fui claro na explicação. Esse tempo já deixou a gramática normativa há séculos, ganhando lugar nas gramáticas históricas. Segundo a Academia das Ciências de Lisboa, portanto, o uso do pretérito anterior, atualmente, constitui infração à norma da Língua Portuguesa; deve ser, assim, obrigatoriamente substituído pelo pretérito perfeito simples do Modo Indicativo.

Pedro Melcop disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro Melcop disse...
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Pedro Melcop disse...
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